terça-feira, 23 de agosto de 2022

O filho de Sérgio Figueiredo e a inconsciência do privilégio

 



OPINIÃO

O filho de Sérgio Figueiredo e a inconsciência do privilégio

 

Não duvido por um minuto que Sérgio Ribeiro se tenha matado a trabalhar para concretizar o seu sonho. Mas achar que se o filho do padeiro de Portalegre se tivesse matado da mesma forma teria alcançado o que ele alcançou é pura e simplesmente ridículo.

 


João Miguel Tavares

22 de Agosto de 2022, 22:13

https://www.publico.pt/2022/08/22/opiniao/opiniao/filho-sergio-figueiredo-inconsciencia-privilegio-2017978

 

A polémica em torno da contratação de Sérgio Figueiredo por Fernando Medina atingiu na semana passada Sérgio Jacob Ribeiro, CEO e fundador da Planetiers, e filho de Sérgio Figueiredo. O semanário Novo escreveu um artigo sobre o Planetiers World Gathering, um evento criado por Sérgio Ribeiro cuja primeira edição decorreu em Outubro de 2020 em Lisboa, na Altice Arena. Segundo o jornal, a câmara liderada por Fernando Medina atribuiu ao evento um patrocínio de 350 mil euros, e a TVI foi a estação responsável pela sua promoção.

 

O acordo com a TVI foi fechado quando o pai de Sérgio Ribeiro ainda era director do canal, e embora Sérgio Figueiredo tenha garantido ao Novo que a estação de Queluz de Baixo recebeu um valor “considerável” pela promoção do evento, o montante exacto não foi divulgado. Sabe-se apenas que o principal patrocinador foi o Turismo de Portugal, contribuindo com mais de um milhão de euros.

 

Sérgio Ribeiro, que no Linkedin se apresenta como “Planetiers CEO & Co Founder, International Speaker e Serial Entrepreneur”, cometeu um erro elementar de comunicação: decidiu responder à notícia com uma carta aberta intitulada Culpado de ser filho do meu pai, que o Observador publicou durante o fim-de-semana. Essa carta tem um problema grave e que muito me encanita: a inconsciência do seu privilégio.

 

Sérgio Ribeiro indigna-se por ter sido “arrastado” para uma “discussão” que não lhe diz respeito, já que aquilo que viabilizou a Planetiers World Gathering 2020 foi o “esforço”, a “dedicação” e o “trabalho” de muita gente e de muitos patrocinadores. E pergunta: “Serei culpado por ser filho do Sérgio Figueiredo? Nunca tentei, por isso, ter algum tipo de vantagem ou ser mais do que qualquer outro. Mas também não posso ser penalizado.”

 

Vamos lá ver. É muito difícil acreditar que antes de 20 de Agosto de 2022, quando o Novo pespegou a cara de Sérgio Ribeiro na primeira página do jornal, ele tenha sido algum dia prejudicado por ser filho de Sérgio Figueiredo. O CEO & Co Founder da Planetiers conseguiu, com menos de 30 anos de idade, organizar um evento orçamentado em três milhões de euros, levar ao palco da Altice Arena o presidente da Câmara de Lisboa, a secretária de Estado do Turismo, o CEO da Altice e vários outros patrocinadores, para cumprir um sonho que parece bastante cristalino para quem se tenha dado ao trabalho de assistir aos vários vídeos do evento (eu dei): criar uma Web Summit portuguesa em tons de verde, um ambicioso “hub internacional para a sustentabilidade”, com todos os truques pirotécnicos celebrizados por Paddy Cosgrove.

 

Mas se até para Paddy Cosgrove começa a faltar paciência, não admira que passados dois anos a Planetiers World Gathering tenha encolhido da Altice Arena para o Pavilhão Carlos Lopes, e a Câmara de Lisboa tenha informado que não vai conceder qualquer apoio financeiro à nova edição, que acontece daqui a dois meses. Note-se: não duvido por um minuto que Sérgio Ribeiro se tenha matado a trabalhar para concretizar o seu sonho. Mas achar que se o filho do padeiro de Portalegre se tivesse matado da mesma forma teria alcançado o que ele alcançou é pura e simplesmente ridículo.

 

Sérgio Ribeiro quer realmente mostrar o que vale? É muito simples: para a próxima tente fazer o mesmo sem o apoio do amigo do pai e da estação onde o pai trabalha. Até lá, estará sempre sujeito a que lhe aconteça o que aconteceu: apanhar por tabela por ser filho de quem é.

 

O autor é colunista do PÚBLICO

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