IMAGENS DE OVOODOCORVO
INCÊNDIOS
FLORESTAIS
Em 40 anos, ardeu o equivalente a metade da área de
Portugal continental
Projecto voluntário organizou os dados públicos e mostra
que arderam mais de quatro milhões de hectares nas últimas quatro décadas. O
ICNF diz ainda que em 2022 arderam já mais de 50 mil hectares – bem mais do que
o total do ano passado.
Claudia Carvalho
Silva
25 de Julho de
2022, 19:01
Entre 1980 e
2021, ardeu o equivalente a 55% da área de Portugal continental em incêndios
florestais, segundo os dados revelados este mês pela Associação Portuguesa de
Ciência de Dados para o Bem Social (DSSG PT). A conclusão bate certo com a
triste realidade vivida quase todos os anos em Portugal: “Ardeu mesmo muito”,
sumariza a cientista de dados Nadiia Basos, que desenvolveu a maior parte deste
projecto. Em anos como 2003 ou 2017, a mancha resultante da área ardida é ainda
mais notória.
Nos quase 42 anos
analisados pelo grupo, arderam 4,86 milhões de hectares (4.858.330) – são
48.583 quilómetros quadrados, o que equivale a mais de metade dos 92 mil
quilómetros quadrados correspondentes à área de Portugal. Tal não significa que
metade de Portugal tenha ardido, já que há áreas em que nunca se registaram
incêndios florestais e outras que arderam mais do que uma vez, mas em alturas diferentes.
Os dados vão de 15 de Janeiro de 1980 a 15 de Setembro de 2021.
Foi um trabalho
que levou meses a fazer. Os dados públicos do Instituto da Conservação da
Natureza e das Florestas (ICNF) e da Protecção Civil são abertos e estão
disponíveis para qualquer pessoa, mas estão “espalhados por todo o lado”,
explica Nadiia Basos, que é natural da Ucrânia e mora em Portugal há dez anos.
Alguns dados também eram confusos ou tinham palavras e formatos diferentes.
“Agora continuam abertos, mas mais organizados.” As bases de dados limpas e
organizadas podem ser consultadas aqui.
Da análise surgiu
ainda um mapa interactivo que permite ver a evolução da área ardida por
concelho em cada mês de cada ano. Cada “bolinha” no centro dos concelhos
corresponde ao que ardeu em incêndios florestais: quanto maior e mais escuro o
círculo, maior a área ardida em casa mês. No mapa, basta carregar no botão play
(no canto inferior direito) para assistir à cronologia da área ardida. “Com a
localização geográfica de cada fogo, cada pessoa pode descarregar e ver o seu
concelho mais em detalhe”, refere Nadiia Basos.
No mês de Junho
de 2017, por exemplo, é possível ver um círculo de grandes dimensões no centro
do mapa: trata-se dos 30 mil hectares que arderam nos incêndios de Pedrógão
Grande durante esse mês, e que causaram dezenas de mortes. Em Outubro de 2017,
são vários os círculos gigantes por todo o território nacional (sobretudo na
região Centro), correspondendo aos grandes incêndios que devastaram milhares de
hectares e causaram também a morte a dezenas de pessoas.
Com este mapa, a
associação quer facilitar a compreensão do fenómeno dos incêndios florestais,
permitindo “novas observações que informem a estratégia de combate aos
incêndios”, como se lê num comunicado. E, ao mesmo tempo, visualizar quais as
zonas do país que mais ardem e como esses “pontos de foco” se alteram ao longo
do tempo.
A DSSG PT é uma
comunidade aberta que reúne centenas de voluntários com interesse na ciência de
dados e bem social, que também criou um repositório com os dados da covid-19 em
Portugal e analisou outros indicadores como o número de vítimas de violência
doméstica ou o impacto da pandemia de covid-19 no mercado de trabalho.
Neste trabalho
dos incêndios, o primeiro passo foi recolher os dados que estavam dispersos.
Foram usados os dados do ICNF – que tinham já sido organizados por um
repositório de dados de acesso aberto em Portugal, chamado Central de Dados – e
da Protecção Civil.
Eliminaram-se os
fogos que tinham origem doméstica, industrial ou urbana e eliminaram-se também
os fogos com área muito pequena, explica Nadiia. Depois, organizaram-se os
dados por concelho, acrescenta Nadiia Basos, que trabalha como cientista de
dados espaciais na empresa Tesselo. Também já trabalhou como cientista de dados
geoespaciais na Direcção-Geral do Território e foi investigadora na
Universidade do Algarve.
Mais de 50 mil hectares ardidos este ano
Este mapa
interactivo não tem ainda dados sobre os incêndios de 2022. Em resposta ao
PÚBLICO, o ICNF diz que o incêndio que gerou maior extensão de área ardida este
ano foi o incêndio rural de Vale da Pia, na freguesia de Abiul (concelho de
Pombal), que abrangeu outros concelhos e afectou um total de 4467 hectares,
segundo os dados provisórios. Este incêndio aconteceu no dia 8 de Julho.
O ICNF explica
ainda que “este incêndio rural teve início e decorreu numa região densamente
arborizada e povoada, onde as operações de combate se depararam com desafios
bastante complexos”.
Ao todo, até 25
de Julho, segundo o ICNF, arderam 56 mil hectares num total de 6929 incêndios
em 2022 – o que significa que já ardeu quase o dobro do total de área ardida em
2021. O ano passado, ainda assim, teve valores muito baixos para a média da década,
com o total de área ardida a rondar os 28 mil hectares.
Desde 2012, o ano
de 2022 está a ser o segundo com um valor mais elevado de área ardida (com os
dados disponíveis até 15 de Julho, em que tinham ardido 40 mil hectares), sendo
só ultrapassado por 2017, ano dos grandes incêndios em Pedrógão Grande e no
Centro do país. No ano passado, até 15 de Julho, tinham ardido 12 mil hectares.


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