segunda-feira, 11 de julho de 2022

Continuamos a apagar fogos






OPINIÃO

Continuamos a apagar fogos

 

Continuamos a apagar fogos. Mas interessaria sim que as políticas do Governo conseguissem devolver, à memória colectiva, os dias de bom calor.

 

Carmo Afonso

11 de Julho de 2022, 7:16

https://www.publico.pt/2022/07/11/opiniao/opiniao/continuamos-apagar-fogos-2013170

 

Os dias de calor quase insuportável não são de agora.

 

Costumavam ser dias de calmaria e de serões cá fora, quase sempre a falar do próprio calor que estava, seguidos de madrugadas sem posição para dormir. Altas temperaturas, para quem não tem uma qualquer condição que as torne intoleráveis, não são castigo nenhum. No filme da vida de um português, as melhores memórias estão nos dias quentes.

 

 

Algo mudou.

 

É agora impossível sentir estas temperaturas, enquanto se multiplicam os alertas das autoridades relativamente ao risco de incêndios e aos cuidados que deveremos ter para não desencadear um, e não recordar as tragédias de 2017. Somos um país traumatizado por aquelas mortes e pelas recorrentes imagens de pessoas, no mundo rural, a chorar em aflição por terem as suas casas em risco ou a chorar depois do mal estar feito.

 

Quem já esteve ao pé de um incêndio a segurar uma mangueira de rega ou a apagar as fagulhas que disparam na direção do mato seco, sabe melhor o que é aquela aflição.

 

Por mais romantizações que se façam da vida no campo, a realidade é que no país profundo estão populações envelhecidas e entristecidas. Pessoas que no Verão vivem atemorizadas com a possibilidade de verem arder as suas terras e que, quando acontece, ficam a viver no meio de uma paisagem de tisna e ainda mais entristecidas. Mudar raramente é uma possibilidade. O dinheiro é pouco e a mentalidade não é propícia a aventuras. Vivem onde têm as suas casas e no estado em que elas estiverem. É ali que está a vida.

 

Quando as temperaturas sobem, ficamos todos à espera do pior. Marcelo Rebelo de Sousa cancelou a viagem a Nova Iorque e António Costa a visita oficial a Moçambique. Pouco podem fazer em caso de incêndio, mas sabem que, se viajarem, terão virado costas a um país de traumatizados que aguardam o anúncio de uma desgraça qualquer. Não dá. Já tivemos oportunidade de constatar o quanto o primeiro-ministro não suporta que o acusem de não ter interrompido umas férias quando Pedrógão aconteceu. A forma como perdeu as estribeiras, no último dia de campanha das legislativas de 2019, na Praça do Comércio, faz acreditar que o que aquele homem disse foi injusto. A reação à injustiça costuma vir das entranhas e é difícil de disfarçar e impossível de recriar. Mas Costa sentiu.

 

A juntar ao trauma nacional temos a crise climática global. Anunciam-nos que isto é apenas o início daquilo que nos espera. São outros alarmes que soam. Somos obrigados a perspectivar a nossa vida num planeta em que as temperaturas atingirão novos recordes e em que o dia a dia poderá ser um inferno. Inferno é literal. Este exercício, quando temos temperaturas extremas, tem outra veracidade.

 

A carga ética que vem com a crise climática é também extrema.

 

Dizem-nos que cada gesto particular pode ter impacto no aquecimento global. Somos apontados como os grandes responsáveis pelo problema. Por outro lado, dão-nos a relevância de termos nas nossas mãos a salvação do planeta. Até a analisar os grandes problemas da humanidade somos individualistas.

 

Facto é que nos estragaram o calor que está.

 

Uma vaga de calor já não significa boa praia. Os portugueses sempre tiveram jeito para ver o lado triste das coisas, mas agora não é portuguesice. Vários incêndios continuam ativos e condições atmosféricas graves como as de 2017 são esperadas para os próximos dias. Ontem, mais de dois mil operacionais combatiam as chamas. Já foi declarada a “situação de contingência” e Portugal ativou o Mecanismo Europeu de Proteção Civil.

 

Continuamos a apagar fogos. Mas interessaria sim que as políticas do Governo conseguissem devolver, à memória colectiva, os dias de bom calor.


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