As minhas desculpas às gerações futuras
Intuitivamente, todos percebemos que há algo de errado no
raciocínio: como é possível salvar o nosso planeta, destruindo-o? Substituir
simplesmente um extractivismo (energias fósseis) por outro (fontes renováveis e
carros eléctricos), sem mudar o nosso modelo de sociedade esbanjador, não vai
resolver os desafios que enfrentamos, pelo contrário.
Vítor Barroso
Afonso
Engenheiro
ambiental, sócio-gerente de um empreendimento ecoturístico e actual presidente
da associação de cariz ambiental Povo e Natureza do Barroso.
7 de Julho de
2022, 9:11
https://www.publico.pt/2022/07/07/p3/cronica/desculpas-geracoes-futuras-2012123
Peço,
modestamente, desculpas às gerações futuras pelo mundo caótico que lhes vamos
deixar devido à destruição da natureza. Peço desculpas à grande parte da
população mundial e às gerações passadas que sofreram com os efeitos da
globalização, e que vivem em miséria para nós, ocidentais, podermos viver na
opulência. Peço perdão aos milhares de seres vivos que desaparecem todos os
dias, devido à nossa actividade predatória.
Desde 1972, ano
em que foi publicado o relatório Limites do crescimento do Instituto
Tecnológico de Massachusetts (MIT, na sigla inglesa), nos Estados Unidos, que
temos consciência das consequências nefastas do nosso modelo de desenvolvimento
sobre o planeta. Vários estudos confirmam que, para adaptar o nosso modo de
vida à capacidade de carga do planeta, os países ditos ocidentais deveriam
diminuir em 75% as suas emissões de dióxido de carbono até 2030. Em vez disso,
o que observamos é um aumento global das emissões (mais 27% até 2040, segundo
as projecções da Agência Internacional da Energia).
Mesmo assim, o
que fazemos nós para contrariar essa evolução mortífera? Pouco ou nada.
Preferimos enfiar a cabeça na areia e deixar os decisores (políticos e
económicos) decidirem por nós sobre o nosso futuro. Só que em vez de analisarem
as causas profundas desta crise, os ditos decisores preferem tratar as
consequências, fonte de mais oportunidades económicas.
Enfrentar esse
desafio implicaria, antes de mais, incentivar uma diminuição drástica dos
nossos consumos energéticos e materiais. Fabricar milhares de milhões de
painéis solares e construir milhões de eólicas e carros eléctricos nunca vai
ser a solução. Os decisores esqueceram-se de um pormenor importante: a
transição “verde” que eles pretendem mobilizaria quantidades colossais de
matérias-primas e energia. A consequência inevitável seria o desenvolvimento
desenfreado da mineração em todo o planeta: teríamos que extrair dos solos mais
matérias-primas do que as que já exploramos desde os primórdios da humanidade,
o que seria uma barbaridade.
Intuitivamente,
todos percebemos que há algo de errado no raciocínio: como é possível salvar o
nosso planeta, destruindo-o? Substituir simplesmente um extractivismo (energias
fósseis) por outro (fontes renováveis e carros eléctricos), sem mudar o nosso
modelo de sociedade esbanjador, não vai resolver os desafios que enfrentamos,
pelo contrário.
Mas, então, o que
podemos fazer? Começar por identificar o principal “culpado”: o sistema
socioeconómico ocidental globalizado, baseado na maximização do lucro a todo o custo
e na busca obstinada pelo crescimento. O chamado capitalismo. A solução é
substituir esse sistema por um sistema justo e em equilíbrio com o meio
natural. Enquanto não atacarmos o cerne do problema, as soluções propostas
estarão destinadas ao fracasso.
Por isso, além de
enfrentarmos um desafio ecológico sem precedentes, também vamos ter que
enfrentar um desafio sociopolítico e económico transformador da mesma
amplitude. Se nada for feito rapidamente nesse sentido, o mundo tornar-se-á
cada vez mais instável e caótico. É esta a verdade inconveniente.
Perante este
quadro assustador, não devemos baixar os braços, mas sim sair da nossa letargia
e usar democraticamente a força popular para exigir aos responsáveis políticos
que tomem as medidas acertadas.
Finalmente, caso
o despertar salutar não acontecer, peço desde já às gerações futuras e
passadas, aos povos e seres vivos em sofrimento, que aceitem as minhas sinceras
e modestas desculpas.

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