Vice-presidente da Associação Cívica Transparência e Integridade (TIAC)
critica uma "partidocracia dominante". Candidaturas sem símbolo partidário são
uma lufada de ar fresco na democracia, mas há vários tipos de independentes
O Estado funciona como se estivéssemos em 1976,
quando se realizaram as primeiras eleições autárquicas em Portugal e a televisão
era a preto e branco, não havia telemóveis nem cartazes a decorar campanhas
eleitorais. O cenário é traçado por Paulo Morais, vice-presidente da Associação
Cívica Transparência e Integridade (TIAC) e director do Instituto de Estudos
Eleitorais da Universidade Lusófona do Porto, para descrever o acesso dos
cidadãos independentes às eleições autárquicas.
Se a comparação for entre os partidos e os candidatos independentes que
ambicionam chegar ao poder municipal depois das eleições de 29 de Setembro, a
vantagem dos partidos é "gigantesca". Morais explica que a Constituição
determina eleições livres e justas, mas considera que o processo começa logo
inquinado pela ausência total de condições de equidade entre os candidatos. A
subvenção estatal, a isenção de IVA na aquisição de bens e de IMI concedida às
sedes partidárias, a utilização de logótipos e o acesso aos órgãos de
comunicação social são exemplos das vantagens dos partidos. "A lei eleitoral
autárquica devia ser revista, há uma vantagem gigantesca dos partidos em relação
aos independentes, são os candidatos com menos recursos que são penalizados em
termos fiscais", defende Paulo Morais.
Teresa Serrenho criou há três anos a Associação Nacional dos Movimentos
Autárquicos Independentes (AMAI), que funciona como plataforma de esclarecimento
para muitos dos que se querem apresentar a votos sem partido. Nestas eleições,
Teresa Serrenho é candidata independente à presidência da Câmara das Caldas da
Rainha: "Não queremos ser partidos, mas queremos ser tratados de igual forma". A
AMAI foi recebida pela presidente da Assembleia da República (AR) e pelo
provedor de Justiça. "A Comissão de Direitos, Liberdades e Garantias da AR
aprovou, por unanimidade, pareceres favoráveis da Comissão Nacional de Eleições
e da Associação Nacional de Freguesias (Anafre)", lembra. Mas as propostas
acabaram chumbadas em Maio deste ano. "Somos
, talvez
sejamos vistos como uma ameaça ao facto de as pessoas estarem fartas e os
partidos estrangulados", diz Teresa Serrenho, embora recuse a ideia de que estar
num partido signifique ter uma espécie de cadastro. Em cima da mesa estavam as
isenções fiscais e o uso de símbolos, mas o próprio nascimento da candidatura
está, à partida, mais comprometido: "5% dos nossos eleitores têm que assinar por
nós para que a candidatura seja possível, enquanto os partidos precisam de 7000
assinaturas que são recolhidas a nível nacional".
Os independentes que ambicionam ter mais do que um voto no seu concelho
deparam-se com o que Paulo Morais descreve como um processo autárquico refém de
"uma partidocracia dominante". Mas que devia ser combatida, quer pela CNE, quer
pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC): "Os meios de acesso ao
eleitorado não estão garantidos pela CNE. São garantidos aos grupos de
independentes tempos de antena em meios de comunicação locais, mas é só. Aquilo
que o Estado garante é o mesmo que garantia nos primórdios da democracia, não se
modernizou", diz o professor universitário. Entre as medidas que sugere está a
determinação pela ERC que "candidatos que estão na condição de comentadores
políticos sejam inibidos de produzir comentário durante o período de
pré-campanha e de campanha eleitoral, por respeito ao princípio do pluralismo
democrático".
Paulo Morais identifica, porém, três tipos de independentes. E considera que
o eleitorado também faz essa distinção. Há os "verdadeiros", que resultam da
sociedade civil, mas há também os oriundos dos partidos, uns que saíram pelo
próprio pé, outros que os partidos não escolheram. E há ainda uma terceira
categoria, os do tipo "Isaltino Morais e Valentim Loureiro", que fazem campanha
"à custa do poder e do muito dinheiro que tinham".
Num momento em que já se conhecem cerca de 1100 candidatos à presidência das
308 câmaras do país, um número ainda incompleto até ao fecho das candidaturas a
5 de Agosto, já estão na corrida perto de 80 candidaturas que se classificam
como independentes. "A proliferação de independentes é sempre positiva, vem
refrescar a democracia", defende Paulo Morais. Mas é certo que, nas condições do
actual sistema, "estar no poder ou próximo dele ajuda a qualquer movimento
eleitoral."
A prova de fogo das candidaturas
independentesO que eles dizem
Candidaturas independentes são uma ameaça aos partidos, mas o sistema
partidário só entra em colapso quando o eleitorado perder a sua ligação e deixar
de ser fiel. As autárquicas serão a sua prova de fogo.
As (até agora) 78 candidaturas independentes que no
dia 29 de Setembro vão disputar as eleições autárquicas são feitas de histórias
que nos remetem para as muito faladas transferências que sempre animam o mundo
do futebol. Sucede, porém, que o que está em jogo neste campeonato não são
contratos milionários, mas muitas expectativas e muitos "jogadores" a mudar de
campo.
Desta vez, um quarto dos candidatos concorre fora dos espartilhos dos
partidos - mais 28 do que nas últimas eleições municipais - e joga tudo na crise
de confiança que varre os partidos. Trata-se de candidaturas apartidárias, mas
com ideologia.
"A componente ideológica é expectável. A independência aqui prende-se com a
independência dos partidos, mas dificilmente os candidatos deixarão de ter
posições políticas (ou seja, ideologia) só por não estarem ligados a partidos",
afirma o professor da Universidade de Aveiro Carlos Jalali, especialista em
Ciência Política.
André Azevedo Alves, mestre em Ciência Política e professor na Universidade
Católica do Porto, defende que "há casos em que há uma componente ideológica,
porque as candidaturas estão mais ligadas a questões locais ou divergências
locais, mas numa parte substancial dos casos não tem uma natureza ideológica
vincada".
Manuel Meirinho, do Instituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade
Técnica de Lisboa, encara este fenómeno das candidaturas independentes como algo
de "saudável até para a própria democracia, porque incute maior concorrência na
disputa do poder" e, simultaneamente, diz, "induz nos partidos uma pressão para
a sua renovação e para a sua permanente adequação a estas novas realidades".
Para Ana Belchior, professora de Ciência Política no ISCTE-Instituto
Universitário de Lisboa, muitas destas candidaturas não são propriamente uma
expressão de poder político alternativo ao dos partidos políticos, mas antes da
competição política sem o apoio (anteriormente concedido) do partido - este tem
sido o caso mais recorrente". No entanto, acrescenta, "existem alguns indícios
de que candidaturas de verdadeiros independentes comecem a emergir". Do seu
ponto de vista, não se trata de um fenómeno exclusivamente nacional.
Que razões potenciam o aparecimento destas candidaturas? Em primeiro lugar,
"o cansaço geral gerado pelo funcionamento da política convencional (isto é,
centrada nos partidos, partidocracia, tráfico de influências, etc.) e a
esperança dos cidadãos de que estas representem uma nova forma de fazer
política, mais próximas dos cidadãos e dos seus interesses, mais democrática e
menos sujeita ao jogo de influências políticas (isto para as candidaturas
efectivamente independentes dos partidos)".
Ana Belchior diz que "a expectativa é a de que estas candidaturas sejam menos
ancoradas nos partidos e nos interesses políticos (nem sempre o são, dado a
larga maioria dos candidatos/candidaturas não emergir propriamente da dita
sociedade civil, mas de dissensões partidárias) ". Em qualquer dos casos -
observa -, "estas candidaturas consubstanciam indubitavelmente uma quebra no
poder oligárquico dos partidos políticos na representação política em
democracia". De resto, aponta três "factores fundamentais" associados a este
tipo de candidaturas: o descrédito crescente relativamente ao papel dos partidos
políticos enquanto agentes privilegiados de representação política (a confiança
nos partidos políticos decresceu em 2008 de um valor já muito baixo - 30% - para
menos de 20%, em 2012); a crescente formação e informação dos cidadãos em geral,
o que leva a que sintam mais capacidade para encabeçar ou apoiar estas listas (é
um fenómeno transversal às sociedade ocidentais e não só, explica,
inclusivamente, à chamada "Primavera Árabe"); e a prevalência de uma ligação
privilegiada dos líderes políticos aos eleitores em contexto de eleições
autárquicas (a ser legal, não creio que fosse expectável esta proliferação de
candidaturas a nível de legislativas, dado o nosso sistema eleitoral não
estimular esta proximidade".
Questionada sobre se a descredibilização dos partidos pode potenciar o
aparecimento de candidaturas independentes, Ana Belchior afirma: "Existem razões
para acreditarmos que sim. Em 2006, num projecto de investigação levado a cabo
no ISCTE (coordenado pelo professor Leite Viegas), cerca de 20% do eleitorado
concordavam com a ideia de que seria possível a democracia sem partidos, assim
como cerca de 80% dos eleitores concordavam com a alteração da lei actual para
que pudessem ser apresentadas candidaturas de cidadãos independentes ao cargo de
deputados na Assembleia da República". Mais recentemente, em 2012, refere ainda
Ana Belchior, "registamos num outro projecto, com a coordenação do professor
André Freire, mas também do professor Viegas e minha, que o número de pessoas
que acreditavam que os partidos eram a ligação preferencial entre os cidadãos e
o Estado decresceu substancialmente (de cerca de 80% que acreditavam nesta
ligação, para pouco mais de 50%, em 2012)".
Carlos Jalali, professor da Universidade de Aveiro e especialista em Ciência
Política, teme que a crise de confiança nos partidos possa "desembocar numa
desagregação do sistema partidário e, nesse caso, este efeito das candidaturas
independente tenderá a ser ainda mais acentuado". Quanto às razões que têm
potenciado o aparecimento destas candidaturas, Jalali aponta também três
factores, mas que funcionam de forma distinta nos diferentes tipos de
candidaturas. "Por um lado, a possibilidade de candidaturas independentes (com a
lei eleitoral de 2001) retira o virtual monopólio de representação que até então
os partidos detinham. Tal torna os partidos menos coesos, dado que permite a
potenciais candidatos que não foram seleccionados pelo partido concorrerem como
independentes", afirma. Para além disso, "a crescente desafeição com os
partidos, e o facto de o apelo eleitoral ser cada vez mais centrado em factores
de curto prazo como o desempenho governativo ou a personalidade do líder,
significa que estes candidatos independentes não são necessariamente penalizados
por não terem a etiqueta partidária". E essa crescente desafeição com os
partidos "também pode potenciar candidaturas independentes que surgem de espaços
que previamente não participavam ou que sentem que não têm espaço nos
partidos".
Duração dos mandatos
Manuel Meirinho, professor do Instituto de Ciências Sociais e Políticas da
Universidade Técnica de Lisboa e há muitos anos investigador destes fenómenos,
afirma que "nestas eleições há um factor que promoveu muito as candidaturas
independentes e que tem a ver com a indefinição sobre a duração dos mandatos
autárquicos".
"A lei de limitação de mandatos é um exemplo paradoxal, e até um bocado
kafkiano, de os partidos entenderem a relação entre eles e os cidadãos. Não
clarificam as leis, não são claros nas suas posições", afirma Meirinho.
Paralelamente, assiste-se a uma "erosão muito grande que se nota em todos os
estudos da confiança entre os cidadãos e os seus actores políticos e essa erosão
é particularmente visível no plano local, onde os cidadãos avaliam de uma forma
mais directa o desempenho dos partidos".
André Azevedo Alves, da Universidade Católica, fala também da "erosão muito
significativa dos partidos" que decorre da "falta de confiança dos cidadãos",
embora reconheça que "as candidaturas independentes representam uma ameaça aos
partidos no sistema partidário no seu todo". E frisa que "há uma parte do
eleitorado que continua manter uma fidelidade aos partidos. Quando deixar de
haver essa ligação e fidelidade aos partidos, o próprio sistema partidário
colapsa".
Já Manuel Meirinho vê o fenómeno do crescimento das candidaturas
independentes como "natural perante o desgaste muito centrado dos partidos
políticos enquanto estruturas representativas, sejam elas no espaço nacional ou
local". E esta "falta de credibilidade e de incapacidade dos partidos em se
reformularem e abrirem um pouco à sociedade cria, por outro lado, espaço para a
emergência de grupos de cidadãos que não se revêem nas máquinas partidárias e
nas suas formas de funcionamento".
Meirinho encara este fenómeno como uma "demonstração de que a sociedade civil
ainda tem alguma capacidade de organização política, dado que é neste espaço que
é mais fácil de competir com os partidos". E prossegue a explicação: "O espaço
local é o mais adequado à competição da sociedade civil organizada relativamente
aos partidos. O esforço de organização destas candidaturas é mais fácil neste
contexto do que à escala nacional ou supranacional. O espaço local é também o
espaço natural onde os esforços e as exigências, sejam elas formais ou de
competição pura e dura, são mais facilitados para estes movimentos". Do lado dos
cidadãos - constata -, "há uma abertura cada vez maior à emergência de novos
líderes políticos e de novas formas de organização".
Manuel Meirinho não partilha da opinião daqueles que argumentam que as
candidaturas independentes, promovidas por grupos de cidadãos, acabam por ser
"mais permeáveis a interesses locais, sejam eles ligados à construção civil ou a
outros". E afirma: "Isso é igual tanto para estes movimentos com o é para os
partidos, o que é válido para uns é válido para outros". Observa ainda que "não
há candidaturas genuinamente independentes" e afirma que "há um primeiro bloco
de candidaturas que emerge do facto de haver brigas políticas locais, e, em
função disso, organizam-se, mas não contra os partidos a que estiveram ligados",
e "depois há também o espaço para os cidadãos se organizarem". "Não há cidadãos
que genuinamente se organizem - isso é um conceito ideal. É quase impossível que
um cidadão de per si tenha capacidade organizativa", diz, separando águas. "Há
candidaturas que emergem no espaço natural dos partidos e as que emergem no
terreno social, onde as elites locais se organizam de uma forma diferente",
afirma, vincando a ideia de que, "globalmente, não se pode considerar que há
candidaturas genuinamente independente porque a questão não é do conceito, mas
do espaço social em que são emergentes".
Este especialista avança com uma outra explicação para fazer vingar a sua
tese e que assenta neste princípio: "A partir do momento em que as candidaturas
entram na competição deixam de ter o rótulo de candidaturas genuinamente
independentes, porque também elas estão a angariar apoios". Em jeito de
conclusão, declara que "começa a haver alguma consistência de movimentos destas
candidaturas", mas ainda é cedo para se tirar conclusões. Porquê? "Porque as
eleições autárquicas são de quatro em quatro anos e este crescimento é muito
contextualizado, não é algo estruturado na nossa sociedade".
Desentendimento à esquerda
"Este movimento é bom para a democracia, quanto ao resultado em termos de
futuro e de consistência vai ser preciso esperar, ainda é cedo para a conclusão
do verdadeiro contributo destes cidadãos", salienta. E, a este propósito,
Meirinho deixa uma reflexão: "O contributo deste movimento de cidadãos é
positivo, até porque faz aumentar a competição política (...), mas uma coisa é
eles candidatarem-se e outra é exercerem o poder. Aí o fenómeno é totalmente
diferente. Mesmo que alguns consigam eleger alguns mandatos, depois afogam-se no
funcionamento do sistema".
Sublinhando que as candidaturas independentes representam uma oportunidade
que o sistema abriu em termos de legislação a partir da revisão constitucional
de 1997, André Freire, professor de Ciência Política do ISCTE, aponta também o
"grande criticismo" de que são alvo os partidos hoje para a emergência destas
listas. E acredita que algumas "serão genuinamente independentes, outras têm
menos lastro político atrás de si, com experiência não de topo", mas essas,
salvaguarda, "são mais residuais".
André Freire não tem dúvidas de que há movimentações diferentes. "Há uns a
que é impossível traçar uma genealogia, no sentido em que há dirigentes que
foram de partidos e alguns até foram presidentes de câmara", afirma, não
hesitando em dizer que "há alguns movimentos que estão a tentar utilizar o
instrumento das listas de cidadãos como forma de superar a falta de entendimento
entre a esquerda". E aponta o Movimento de Cidadãos por Coimbra como um exemplo
encontrado pelos cidadãos independentes para superar o problema do entendimento
da esquerda actualmente.
Atento a estes fenómenos, André Azevedo Alves realça que "se o sistema
partidário, no seu todo, não for capaz de se adaptar a estes sinais e a estas
mudanças, então pode haver problemas para os partidos concretos e o sistema
partidário pode ficar numa situação de inviabilidade". Tal como Manuel Meirinho,
também Azevedo Alves admite que "é cedo para tirar essa conclusão de que as
candidaturas independentes são um fenómeno imparável. Podemos identificar essa
tendência, que é crescente, mas não podemos dizer que vai ser imparável".
Para o fim, deixa um alerta aos partidos que apresentam listas em Setembro:
"Se tivermos vários casos de sucesso em câmaras com alguma projecção, isso pode
gerar um enfraquecimento das estruturas partidárias tradicionais, porque
passarão a ter de contar com a possível ameaça de uma candidatura independente
que fruste a candidatura oficial, no caso de essa candidatura oficial não
coincidir com os anseios de uma parte significativa das populações locais".
"Se muitos dos resultados das eleições autárquicas se traduzirem em casos de
sucesso de candidaturas independentes, então essa tendência tenderá a ser maior
e, daqui para a frente, as estruturas partidárias terão de prestar uma maior
atenção na selecção dos candidatos para as listas e evitar esse tipo de riscos",
conclui o professor da Universidade Católica do Porto."Estas candidaturas
consubstanciam indubitavelmente uma quebra no poder oligárquico dos partidos
políticos na representação política em democracia"
Ana Belchior
professora do ISCTE
"Há uma parte do eleitorado que continua a manter uma fidelidade aos
partidos. Quando deixar de haver essa ligação e fidelidade aos partidos, o
próprio sistema partidário colapsa"
André Azevedo Alves
professor da Católica do Porto
"Permite a potenciais candidatos que não foram seleccionados pelo partido
concorrerem como independentes"
Carlos Jalali
professor da Univ. de Aveiro
"Saudável até para a própria democracia, porque incute maior concorrência na
disputa do poder"
Manuel Meirinho
professor do ICSP