quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Histórias de morte e sucesso no corte e costura da Baixa lisboeta




Histórias de morte e sucesso no corte e costura da Baixa lisboeta

TERESA SERAFIM 05/10/2016 – 08:53

As modas e os tempos mudam e, se há lojas que os acompanham, outras fecham portas. Nas retrosarias e lojas de tecidos da Baixa há desistências, mas também renovação. E muitas memórias.

Depois de 243 anos, a porta da Tavares - Panos fechou neste Verão. Quem passar pelo número 69 da Rua dos Fanqueiros já não vai encontrar os conselhos de Valter Costa, empregado de balcão da loja. “Quando soube do encerramento foi um choque. Afinal, sou um dos rostos da loja”, diz desanimado. Mas se lojas dedicadas aos tecidos fecham, há também negócios que perduram e outros que nascem. Entre a tradição e a inovação, há quem mantenha a tesoura bem afiada para cortar ao centímetro o tecido pretendido. Mas qual é a medida certa?

Rodeados por prateleiras metálicas desmontáveis da década de 70, José Filipe Carvalho, o sócio-gerente, Valter Costa, o empregado de balcão, e um vendedor discutem o próximo hotel que será instalado na Baixa. “Uh, deve ser na Rua da Madalena, mas já nem sei, já começam a ser tantos!”, diz o fornecedor de muitas lojas de tecidos na Baixa. José Filipe e Valter permanecem impávidos às contestações do vendedor, apenas acenam com a cabeça. Estes dias de Julho são os últimos instantes de vida da Tavares - Panos e o período de luto já começou. Pela loja já só permanecem monos, retalhos e os esqueletos de tábuas de papelão que já foram suporte de musculados linhos. “Os melhores panos de lençol e linhos foram logo vendidos assim que foram colocados na montra”, suspira José Filipe, a apontar para os papéis de Liquidação Total colados nos vidros.

Sem capital não há inovação

É uma parte da história de família de José Filipe que terminou no final do mês de Julho. Tudo começou em 1793, com a firma Tavares e Companhia. Em 1887, a loja passa para as mãos do seu bisavô. Os anos foram de ouro para o negócio. A loja tinha três casas e todas com clientela. Até uma papelaria chegou a fazer parte da firma. Durante o seu crescimento, José Filipe assistiu a estes tempos áureos.

Em 1975, o actual gerente começa a trabalhar na loja. Desde esse período que as vendas têm vindo sempre a descer. “A sociedade alterou os seus hábitos e deixou de vir a uma loja deste género”, indica. Também a nível de fornecedores tem sido complicado para quem só trabalha com produtos portugueses, como era o caso da Tavares-Pano. “Metade das fábricas desapareceram, embora as melhores tenham melhorado. Mas mesmo essas têm de exportar 90% da sua produção para o estrangeiro para sobreviverem”, conta com desânimo.

“Nunca houve inovação porque isso implicaria investimento que não conseguimos suportar”
José Filipe Carvalho

Há clientes habituais, que procuram a qualidade e a conversa. É isto que distingue o comércio tradicional e fez resistir a loja tantos anos. Mas nem todos permaneceram e a quebra das vendas ditou o fim da loja. Mas nem só. Desde há dois meses que se sabe que a renda teria um “brutal” aumento. Subiria cerca de cinco vezes. Desde então que se tem vindo a tratar dos “finalmentes” da loja. Contudo, há inquilinos novos. São do Bangladesh e não vão precisar do metro de madeira, vão vender produtos turísticos. “Há 10 anos havia 10 lojas turísticas neste quarteirão. Soube há pouco tempo que agora só na rua da Prata são 27. Em toda a Baixa, devem andar nas 100”, aposta José Filipe. Mas porque é que não se investiu em algo novo na antiga Tavares-Panos para superar o decréscimo das vendas? Porquê não mudar as incaracterísticas estantes metálicas e introduzir novos produtos? José Filipe é peremptório: “Nunca houve inovação porque isso implicaria investimento que não conseguimos suportar”.

José Filipe ainda não pensou bem no que vai fazer a seguir, talvez descansar e depois avançar para a reforma. Dos sete empregados que a loja já teve, o único que resta é Valter. Permanece ansioso a escutar as respostas do patrão. Está na meia-idade e não se quer submeter ao desemprego. Afinal, o ofício que aprendeu é o de cortar tecidos. “Tenho uma forma exclusiva de cortar o pano, que é por fio”, indica. Já se convenceu que este vai deixar de ser o caminho que percorre desde 1993. “As pessoas deixaram de aprender estes ofícios. Em vez de se coser um botão, compra-se uma camisa nova”, lamenta suspirando.

Já viu muita gente a passar pela montra. Já atendeu muitos clientes. A história da cidade tem passado pelos seus olhos. Aliás, para Valter, um dos principais factores que desviaram clientes da loja foi o facto de estes passarem menos pela loja por causa do metro. “Antigamente, as pessoas que vinham da Margem Sul corriam a Baixa. Os picos de movimento eram entre as 9h00 e as 11h00 e as 17h00 e as 18h00. Agora são as alturas mais baixas.” Depois, o decréscimo de habitantes e a saída de serviços públicos da Baixa, que traziam muita gente à loja, também não ajudaram. Aliás, ditou o fim do negócio.

A História pode fazer o negócio

Mas se há quem feche uma porta, há quem esteja com ela bem aberta há mais de 100 anos e não haja sequer perspectivas de encerrar. Basta seguir a calçada portuguesa, andar uns metros e quando se vê a placa da rua da Conceição já se sabe: se não se encontrar uns botões numa loja, sempre se pode entrar na vizinha. A meio da rua avista-se o azul acinzentado com motivos florais na fachada. Há linhas para tricot na montra. Ao entrar, vê-se uma imensidão de caixas com amostras de botão pelas estantes. Linhas e missangas nas vitrinas. Uma caixa registadora centenária da National. O espaço é pequeno mas a variedade é grande na Retrosaria Bijou. “Não basta olhar em volta, muito material está em gavetas”, avisa José Vilar, o proprietário. E depois ainda há os dossiers e o armazém. “Exige um grande conhecimento do que se está a propor ao cliente”, avisa atrás do balcão de madeira.

Diálogos noutras línguas e o ruído do eléctrico soam lá fora. Lá dentro, o ambiente é o mesmo desde 1915, ainda quando a firma pertencia a Amorim Lopes. Seis anos depois, a retrosaria passa para o avô de José por trespasse. “Era um mestre”, relembra. Apesar de só ter começado a trabalhar na loja em 1975 houve um ensinamento ao longo da vida. Desde os anos 80, gere a loja e não pode deixar de constatar: “A diferença é avassaladora”. Os sete empregados passaram a ser três e a falta de procura dos artigos tem ditado a quebra nas vendas. Há vários factores que José Vilar indica: "Antes, a maioria produtos eram destinados às donas de casa, que diminuíram. Além disso, agora as multinacionais oferecem preços muito baixos pelo vestuário".

Mas ainda há quem venha à Bijou à procura de exclusividade. “Uma das razões da nossa existência são os clientes que querem o produto diferenciado”, sublinha. Depois há sempre qualquer moda que pega e a Bijou adapta-se a isso. Já foi assim com os botões de diferentes formas e feitios e ultimamente com o tricot. Relativamente ao espaço físico, não se pode inovar: “É uma loja de tradição”. Mas nem por isso se tem parado de interagir com novos públicos e iniciativas. Muitas vezes, os turistas pedem fotografias e José Vilar serve de figurante, a EGEAC (Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural) criou o Teatro das Compras e a Bijou foi palco. Ultimamente, foi até considerada uma das 63 lojas com história da cidade de Lisboa. Esta foi mais uma confirmação para José Vilar que a Bijou está viva e que há interesse em fazê-la viver como um dos ex-libris da cidade.

Mas o perigo está sempre à espreita e se a história da retrosaria o conforta, a renda pode ser uma realidade transtornante: “A renda aqui aumentou, mas não foi por um valor especulativo. Estamos descansados”. José Vilar sabe que há novos conceitos a surgir e formas de vender diferentes, desde os workshops de costura às lojas de centros comerciais,sendo estas "o tira e paga", sem o estímulo, informação e orientação que a Bijou pode dar. “Esta é uma loja e vivemos disso”. Quanto à vizinhança, é tranquila: “A concorrência mantém a retrosaria viva”.

Andar pela Rua da Conceição pode ser um autêntico desafio. Mesmo que 40% das retrosarias tenham fechado nos últimos anos, de acordo com o historiador Sérgio Rosa de Carvalho, as sobreviventes ainda enchem o olho, seja com os fios de cores bem diferentes ou com o mobiliário centenário. É por isso que José Guilherme, um dos sócios gerentes da Retrosaria Adriano Coelho não entende porque é que a única retrosaria seleccionada tenha sido a Bijou. É no armazém da loja, com indignação e muitas interrogações, que diz: "Acho que a Faculdade de Belas Artes não teve o cuidado de vir aqui ver o que temos.” José já espera pelo alargamento de Setembro. “Interessa-nos fazer parte”, afirma com esperança.

As entranhas da retrosaria, o armazém, são um autêntico museu, quase nem dá para ver tudo ao pormenor, seriam necessárias várias visitas. É isto que distingue a Adriano Coelho, que José Guilherme gere com Orlando Mateus desde 1978. Embora hoje existam menos clientes do que é desejável, esta é uma loja que está em roteiros e revistas internacionais e consegue ter um público jovem. “Alguns até se admiram como nós ainda existimos, face à crise e às exigências”, conta. Quanto ao bicho-papão da renda, estão alarmados, mas não é um pânico. “O nosso senhorio é uma companhia de seguros, com a qual temos um excelente relacionamento, não temos razão de queixa”, diz descansado.

José Guilherme esclarece que a Adriano Coelho se tenta sempre adaptar à moda. Apesar do artigo de retrosaria ser rotativo, há sempre muita procura por algodões que, muitas vezes, tem de ser garantida por fornecedores espanhóis. “O mercado espanhol é o que nos abastece. Os armazéns do Porto demoram oito dias a entregar, mas os de Espanha entregam em 48 horas”, lamenta. As vendas para marchas e carnaval já foram um sucesso. De há 20 anos para cá desceram. O mercado espanhol está perto e desvia as vendas.

Um novo conceito e novos tecidos

Rosa Pomar até podia estar às compras na Adriano Coelho. “Sou cliente desde miúda”, diz com nostalgia. Aliás, a infância de Rosa fez-se bem perto de retrosarias. Ao longo dos anos, foram fechando todas. Mas o seu culto pela quantidade “louca” de produtos neste tipo de loja sobreviveu. Em 2004, começa a vender bonecas de pano num dos blogues mais antigos de Portugal: A Ervilha Cor de Rosa. “Sempre gostei de escolher cores e texturas.”

Por isso, em 2008, decidiu fazer um site de venda própria. Na altura, não havia mais ninguém em Portugal a vender tecidos do género online. Se os adquiria para ela, porque não arriscar e vender para mais pessoas? A procura começou a ser de tal forma intensa que foi inevitável, teria de abrir uma loja física. Em 2009, encontrou o espaço num segundo andar de um prédio da Rua do Loreto. Assim, de uma antiga fábrica de manequins, nasce a Retrosaria Rosa Pomar.

Ao entrar na retrosaria, há novelos de muitas cores distribuídos por estantes, cestos e gavetas. As cores são muitas e os rótulos fazem antever um produto único. Depois ainda há prateleiras de madeira com tecidos vindos de recantos de todo o mundo, com padrões tribais ou floridos. Filipe Pacheco, juntamente com Rosa, é um dos lojistas e aponta para o cesto onde está o Beiroa, o primeiro fio produzido para a loja. “Enquanto clientes, sentíamos que havia retrosarias que não ofereciam fios estrangeiros de qualidade. Nem ofereciam nada de local”, diz Filipe. Como tal, começaram a produzir.

Mas nem sempre foi fácil. “Algumas vezes era difícil chegar aos produtores. Uma mulher nova a dizer que queria produzir fios era olhada de lado”, relembra Filipe. Rosa não desistiu e aproveitou as 15 raças autóctones de ovinos portugueses para produzir fios próprios em colaboração com fábricas e criadores e pediu a ilustradores portugueses para desenharem os rótulos. “Há um público que prefere um produto mais processado em vez de massificado”, indica Rosa. Em Setembro, vai haver novas cores de um fio de um merino português. Até já tem nome, e bem português, chama-se João.

Reavivar o espírito das lojas tradicionais portuguesas, em tempos estabelecidas nos segundos andares dos prédios, é outro dos objectivos. O ambiente da retrosaria é familiar, até há uma sala para as crianças. Para complementar o revivalismo português, há um altar típico encontrado por uma cliente na reconstrução de uma casa em Viana do Castelo. É a partir dos padrões contidos no altar que se conceberam os autocolantes das encomendas, que vão para Espanha, Inglaterra, Alemanha ou Austrália.

No interior da loja há uma sala para workshops, em tempos sala dos horrores da antiga fábrica, onde estavam as estruturas de metal para modelar a cara dos manequins. “Quando começamos os workshops eramos os únicos a fazer em Portugal”, indica Rosa. Há aulas de tecelagem, bordado ou crochet e no máximo aceitam-se seis pessoas, desde o nível de iniciação a avançado. Os materiais podem ser trazidos de casa ou comprados na loja. Para estimular a venda, todos os participantes têm um voucher de 10% de desconto nos artigos da loja durante três meses.

A Retrosaria Rosa Pomar relembra os tempos em que as lojas eram no segundo andar DR
Esta é também uma loja para turistas. “Mas não está relacionado com este boom de turismo”, sublinha Filipe. Muitos deles conhecem a loja nas redes sociais ou já fizeram encomendas no site, pois cerca de 50% das vendas são para o estrangeiro. “Muitos vêm cá porque estão à procura de fios portugueses”, revela Filipe. De acordo com os dois lojistas, a retrosaria é dedicada a pessoas que não concordam com a exploração no trabalho associada às multinacionais e gostam de algo único.

Mas há mais portas que se abrem. Valter Costa, o empregado da Tavares-Panos, quer montar um negócio de conta própria mesmo ao lado da loja onde trabalhou 23 anos. Valter assume que foi incentivado por antigas clientes. Quer adaptar-se aos tempos e além da venda de artigos, quer algo virado para a confecção. “Estou a estudar a hipótese de trabalhar directamente com as costureiras”, conta sobre os seus planos. Um site, que não existia na sua antiga loja, também vai ser um dos investimentos. Entretanto já tem uma agenda onde aponta contactos de amigos e clientes que tem de avisar quando abrir. Enquanto diz a uma cliente para passar um pano húmido antes de tocar na flanela, informa-a que vai abrir uma loja. “Ah, que bom, tenho comprado aqui tanta coisa e já tinha pena que fechasse”, diz a já antiga cliente, quem sabe futura.

Entre o fenómeno Chíndia e a nostalgia
“Temos um grande desafio pela frente”, defende o historiador de Arquitectura, Sérgio Rosa de Carvalho. O desafio é a transição do turismo cultural, que sustenta as lojas tradicionais, para o turismo de massas. O historiador designa a Tavares - Panos como uma loja antiquada, mas com tradição, vítima do fenómeno Chindia. Este fenómeno é uma incógnita para Sérgio Rosa de Carvalho: “Como é que essas lojas de souvenires conseguem investir na Baixa? Não sei defini-lo, mas tem dinâmica.”

Contudo, o historiador esclarece que as lojas também têm de ser dinâmicas. Para permanecerem devem criar uma nova mentalidade e ter um sentido estratégico de contemporaneidade. “Estamos num período nostálgico do vintage, porque não aproveitar isso?” Mas o historiador também deixa um alerta para a paradoxalidade do vintage: “Deve-se criar o estilo sem alterar o espírito original”.

Sobre as lojas com história, Carvalho salientou que não deve ser a câmara a garantir economicamente as lojas, mas deve ser criado um conceito de urbanismo comercial para determinar o número limite de ocupações de lojas turísticas e hotéis. “Já fecharam 40% de retrosarias na rua da Conceição e qualquer dia nenhum português não mora na Baixa. Qualquer dia chegamos a um ponto de saturação”, alerta.

Texto editado por Ana Fernandes

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